quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Popol Vuh – A música dos Deuses (Parte II)


Com a década de 1990 o Popol Vuh surgiu com um trabalho mais acessível, “You and Me”. Muito próximo da Word music, transitando entre músicas da África, Irlanda, Himalaia e América do Sul. As faixas “Om Mani Padme Hum 1, 2, 3, 4”, cantadas por Renate Knaup, são os destaques do álbum, acompanhadas pelo piano de Florian. “You and Me” soa bastante moderno adaptando-se muito bem à nova geração, com sua produção limpa e suave, diferente do material anterior.

Como se sabe, Florian teve formação clássica (tocava piano desde criança) e como todo grande músico alemão, a música erudita também o influenciou. Portanto, em 1992, ele se enveredou pelo piano clássico gravando um álbum apenas com composições de Mozart, “Popol Vuh / Florian Fricke Plays Mozart”, de 1992. Embora conste o nome Popol Vuh no trabalho, Florian Fricke é o único músico.

Em 1992, tentando modernizar o som do Popol Vuh à tendência techno da época, Fricke convidou Guido Hieronymus para os teclados e guitarra. “Raga City”, talvez seja o trabalho mais fraco da imensa discografia da banda, soando muito parecido com trabalhos do Loop Guru, Deep Forest e Delerium. Ou seja, repleto de seqüenciadores, loops eletrônicos e drum machines. Ainda assim, há momentos agradáveis com a voz de Maya Rose. O mesmo pode-se dizer sobre o trabalho seguinte, “Symphony Shepherd” (1997), também seria o último com Guido Hieronymus.

Popol Vuh era um grupo que quase nunca se apresentava ao vivo, como Fricke não sentia que seria possível manter o nível de intensidade necessária para um concerto completo, ele preferia aproveitar seu tempo compondo e gravando álbuns. Portanto, “Messa di Orfeo” é o único gravado ao vivo. Originalmente lançado em 1999, durante uma apresentação no Labirinto de Molfetta, Bari, Itália. Menos eletrônico e mais agradável do que os anteriores, o álbum ainda traz Maya Rose novamente nos vocais e contando com Guillermina De Gennaro (recita as 5 strofas em italiano). Messa di Orfeo é um dos trabalhos mais suaves do Popol Vuh e o último de Florian Fricke em vida.

Na madrugada do dia 29 de dezembro de 2001, Florian Fricke faleceu calmamente na sua casa em Munique enquanto dormia, na sequência de um ataque de coração ocorrido dias antes. Ele tinha 57 anos.

Após a morte de Florian, houve uma enxurrada de coletâneas, nem sempre boas e de origem duvidosas. Alguns lançadas como se fossem originais, é o caso de “Future Sound Experience”, de 2002; um verdadeiro retalho. Há também compilações excelentes, principalmente para os amantes dos filmes de Herzog: “The Best Of Popol Vuh: Werner Herzog” e “Nicht Hoch Im Himmel’. Outro curioso lançamento é o recente “Popol Vuh: Revisited & Remixed (1970-999)”, CD duplo que traz um CD apenas de remixes de artistas modernos que nem sempre chegam perto do nível da banda homenageada. O CD 1, peca por não abranger totalmente a carreira deles, esquecendo de incluir muitas músicas relevantes.

Florian Fricke era a alma do Popol Vuh; a música era sua vida. Ele a via como uma forma de unir tradições musicais, conhecimento espiritual, para além de qualquer religião. Ele acreditava que as culturas deviam se encontrar umas com as outras no plano espiritual e a musica um guia para unificação do Ser. Portanto, sempre se preocupou em atingir a alma das pessoas por meio da música. Preocupou muito com aspectos de harmonia, ritmo e freqüência em sua obra. Fez pesquisa em seu tempo livre, estudando textos antigos de como a música poderia até ser usada para curar as pessoas.

Florian disse uma vez: “ouvimos tanto, que não ouvimos mais nada, e vemos tanto, que não vemos mais nada.”

Em outubro de 2003 Klaus Schulze escreveu: "Florian foi e continua sendo um precursor importante da música étnica e religiosa contemporânea. Ele escolheu a música eletrônica e seu grande Moog para libertar-se das restrições da música tradicional, mas logo descobriu que ele não conseguiria muito com isso e optou por um caminho mais acústico. Aqui, ele passou a criar um mundo novo, que Werner Herzog tanto amava, transformando os padrões de pensamento sobre música eletrônica para a linguagem da música étnica acústica”.



Um comentário:

  1. Se tinha como ficar ainda melhor do que o primeiro post, é o que foi esse segundo... Eu, que nunca na vida tinha escutado sequer falar nessa banda (sim, estou me sentindo marciana com esse comentário, rs), agora sou uma fã ardorosa da banda. Acho que vc foi muito feliz na forma como conta a trajetória da banda, e do Florian.

    Essa parte achei perfeita: "Florian Fricke era a alma do Popol Vuh; a música era sua vida. Ele a via como uma forma de unir tradições musicais, conhecimento espiritual, para além de qualquer religião. Ele acreditava que as culturas deviam se encontrar umas com as outras no plano espiritual e a musica um guia para unificação do Ser. Portanto, sempre se preocupou em atingir a alma das pessoas por meio da música. Preocupou muito com aspectos de harmonia, ritmo e freqüência em sua obra."

    Esse tipo de sentimento de que a música une e enleva me lembra vc, Cláudio. Sempre tão lirico nesse sentido. É uma das coisas que mais admiro em vc, e acredito que saiba disso.
    Seu post ficou lindo e esse video de On mani padme hum é das coisas mais lindas que já assisti.
    Obrigada por compartilhar conosco isso tudo.
    Beijo carinhoso
    Mary Joe

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